top of page

UMA DESCRIÇÃO DO QUE SÃO PAULO ESTÁ DEVASTANDO NA AVENIDA PAULISTA

  • Foto do escritor: Fórum Verde
    Fórum Verde
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura
Helicônia – Helicônia sp.
Helicônia – Helicônia sp.

Técnicos avaliam em detalhes o que há no local onde está a obra do novo

restaurante no Parque Trianon


Muito tem se falado sobre a obra do novo restaurante que está sendo construído no Parque Trianon, concedido pela Prefeitura de São Paulo à concessionária Borboletas, que estão permitindo a obra num local de preservação ambiental. Trata-se de Mata Atlântica centenária, ainda original do período em que a Avenida Paulista era área florestada, daí sua riqueza.

Mas o que exatamente há ali? Quais são as espécies nativas que se mantém e que tipo de vegetação está sendo perdida? A pedido da Rede Nosso Parque, especialistas em botânica e em análise de flora da Mata Atlântica foram ao local no domingo, dia 28 de julho, observar a área no entorno dos tapumes da obra do novo restaurante. A ideia foi observar o que poderia haver originalmente no local da obra, já que a vegetação do entorno, como grande parte do parque, permanece de forma excepcionalmente preservada e retrata ainda a vegetação original da Avenida Paulista.

Verifica-se que a perda não é apenas nas árvores adultas cortadas (a mídia divulgou, em 29 de junho, que foram cortadas quatro árvores), mas também e muito intensamente no bosqueamento realizado para a implantação do canteiro de obras, vitimando inúmeras árvores jovens presentes no local. Segundo o relatório, o sub-bosque ao lado do tapume é composto de riquíssimo acervo de árvores de Mata Atlântica com grande potencial de interação com fauna e flora.

O relatório, que segue abaixo, é um retrato minimalista e delicado do que São Paulo está perdendo ao abrir espaço no meio da floresta remanescente para a construção de um comércio de alimentos, que promoverá iluminação, sons, impermeabilização e movimentação incomuns ao local, possivelmente danosos à fauna e flora.


Veja o relatório:


Aspectos da vegetação do Parque Trianon


A vegetação do Parque Trianon trata-se de um remanescente florestal da Mata Atlântica. É estruturado, havendo dossel, que é a camada mais alta da floresta, um estrato intermediário e um sub-bosque.

A área do atual parque pertencia ao Sítio do Capão e era conhecida como Mata do Caaguaçu, uma mata secundária de regeneração espontânea, classificada como Floresta Ombrófila Densa Montana, formação vegetal do Domínio da Mata Atlântica, conforme o Plano Diretor do Parque, elaborado pela Prefeitura de São Paulo em 2021.

Dentre as espécies da Mata Atlântica que ocorrem nos arredores da área de corte da vegetação para uma obra no local, há o guamirim Myrcia loranthifolia, cedro rosa Cedrela fissilis, cuvatã Cupania oblongifolia, canela ferrugem Nectandra oppositifolia, jatobá Hymenaea courbaril, canxim Sorocea bonplandii, bico de pato Machaerium nyctitans, sacambu Platymiscium floribundum, canela de cutia Esenbeckia grandiflora, canela Endlicheria paniculata, canela Ocotea sp., ipê-amarelo-cascudo Handroanthus crysothricus e várias espécies de Myrtaceae.

O remanescente florestal sofreu ao longo do tempo ações paisagísticas como o plantio de espécies não nativas da região, como a uva-japonesa Hovenia dulcis, exótica ao país, e o pau-ferro Libidibia ferrea var. leiostachya, nativa da Mata Atlântica de outros estados do país, além da introdução de espécies de porte herbáceo.

O sub-bosque é composto por espécies herbáceas e riquíssimo em indivíduos jovens das espécies dos estratos superiores (árvores que, se não cortadas antes da idade adulta, poderiam medir de até 30 metros de altura), que compõem a regeneração florestal espontânea, com espécies típicas da Mata Atlântica com grande potencial de interação com fauna e flora. Foram avistados, por exemplo, muitos indivíduos regenerantes do guamirim Myrcia loranthifolia, que é uma espécie nativa, zoocórica, atrativa para a fauna regional.

Quando analisamos o corte de vegetação realizado no local, vemos que não se trata de corte de árvores isoladas, trata-se de supressão de vegetação da Mata Atlântica. Os danos não se restringem às árvores maiores e sim a todo o remanescente florestal afetado, incluindo as espécies de fauna e flora.

A vegetação tem o seu valor intrínseco, bem como o dos serviços ecossistêmicos que promove. O Parque Trianon é um remanescente florestal imprescindível para a conservação da biodiversidade dessa porção mais central da cidade de São Paulo que possui pouquíssimas áreas verdes e parques, pois além das espécies de plantas, constitui habitat e abriga centenas de espécies da fauna silvestre e urbana.

Contribui também para a regulação climática e mitigação do efeito das ilhas de calor e para a melhoria da qualidade do ar para as pessoas que moram, frequentam e visitam a Avenida Paulista.

Por isso, cortar a vegetação do Parque Trianon e aumentar a sua área construída é impensável para uma região já densamente ocupada como a Avenida Paulista. Ceder a interesses de poucos, prejudicando a população que frequenta a região, é medida lesiva à população da cidade de São Paulo, e deve ser combatida e evitada.



1 comentário


Fábio Sanchez
Fábio Sanchez
há 4 dias

Muito bom o estudo. Permiter ver que é uma delicadeza o que há no Parque Trianon. Estão sem noção quando põem a perder algo tão rico para montar mais um restaurante onde já existem centenas centenas.Em muito pouco tempo isso vai ser visto como um ato bárbaro. #parquenaoeshopping

Curtir
bottom of page