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PAULISTANOS FAZEM 'FUNERAL'DO PARQUE VILLA-LOBOS

  • Foto do escritor: Fórum Verde
    Fórum Verde
  • há 16 horas
  • 7 min de leitura

Especialista da USP critica o modelo comercial de concessão de parques adotado no Brasil: "vai na contramão"



Mais de duzentos manifestantes de coletivos e entidades ecológicas acompanharam neste domingo, 30/08/2026, um ato em frente o Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste da capital, onde promoveram a encenação de um "funeral do parque", com um minuto de silêncio, lápide e cortejo de enlutados. 


O objetivo foi denunciar a monetização e a desfiguração com objetivos comerciais do Villa-Lobos e das áreas verdes públicas da cidade e do Estado de São Paulo, e sua entrega ao setor privado em prejuízo da fauna, flora, da paisagem e da qualidade de vida em parques, praças, centros de lazer, esporte e cultura. 


No ato, denominado "Domingo no Parque" (em lembrança à tragédia cantada por Gilberto Gil, na qual um belo parque com roda gigante se torna palco de uma ação impensada) foi lido um manifesto assinado pelas entidades que fala da "transformação de cidadãos em consumidores" e do desvio de finalidade dos parques públicos. Moradores locais e frequentadores denunciaram o alto nível de incomodidade que as mudanças no Parque Villa-Lobos tem causado. A Associação dos Amigos do Alto de Pinheiros (SAAP) divulgou uma carta de apoio à manifestação na qual denuncia a falta de transparência na gestão do parque e a "exploração comercial excessiva", informando que por sua iniciativa o Ministério Público do Patrimônio Público e Social abriu inquérito para apurar desvio de finalidade dos bens concedidos (Inquérito Civil nº 0695.0000352/2026).


Políticos como a deputada Marina Helou (PSB), e a codeputada Raquel Gualberto (Bancada Feminista/Psol), a vereadora Marina Bragante (PSB) e o presidente nacional da federação PSOL-REDE, Juliano Medeiros, foram ao ato. Bragante denunciou a “descaracterização de uma infraestrutura de vida na cidade, que não só é a oportunidade de encontro com os outros como também é o pouco de gratuidade que ainda resta em pé”. Também foram apoiar o ato candidatos como Cida Aires (Psol) e Emerson Olho (PSB), que também denunciou a descaracterização da paisagem no Horto Florestal, outro parque estadual concedido no qual a concessionária, após uma gestão errática, está pedindo relicitação e reequilíbrio ao governo antes de cumprir um sexto do período de concessão.




Tapumes


Na carta, a SAAP aponta a exploração do espaço público por terceiros e a interdição desses espaços para reservá-los a eventos e, mais do que isso, a colocação de tapumes e restrições que chegam a durar até dois meses para eventos de apenas nove dias. No caso de um espetáculo noturno, uma grande área do parque foi interditada para o público por seis meses. Manifestantes também se queixaram dos possíveis efeitos contra a fauna noturna. Membros de outra entidade, a Sociedade Amigos do Bairro City Boaçava, também estiveram presentes. Houve denúncias de excesso de ruído e de trânsito em dias de eventos e shows.


Outros locais concedidos ou em processo de concessão foram lembrados. Parques municipais como o parque Ibirapuera e o parque Trianon, concedidos e desfigurados, além de mais de trinta mapeados para receber restaurantes e "polos gastronômicos", surpreendendo seus conselhos desavisados. Parques estaduais como Villa-Lobos, Água Branca, Horto Florestal, Cantareira e muitos outros, tornados centros de eventos em prejuízo de suas paisagem, fauna e flora. Praças como Roosevelt, Victor Civita, Anhangabaú, perpetradas como bons negócios. Centros históricos culturais como o Memorial da América Latina, ou esportivos como o Ginásio do Ibirapuera e a Vila Olímpica Mário Covas, pretensamente entregues ao esporte e à cultura repentinamente pagos. Espaços oferecidos para comércio em áreas de preservação ambiental que podem ser alugados por um dia apenas, ou vários, ao gosto da "operação". As agressões são permitidas e tem sido estimuladas tanto pela Prefeitura de São Paulo quanto pelo governo estadual.


Regina Lima, integrante do movimento em defesa do Parque da Água Branca, apontou a supressão da paisagem e a presença de tapumes no meio de um bosque do Villa-Lobos, “uma descaracterização absurda do lugar, em nome da promoção de eventos e de marcas. O cidadão perdeu seu parque”, disse ela. Flavio Scavasin, que foi gestor do Villa-Lobos antes da concessão, fez a mesma observação. “O Villa-Lobos é um ex-parque”.


Essa é a quarta manifestação do movimento Domingo no Parque, que denuncia a monetização dos espaços públicos de São Paulo, apoiado pelo Fórum Verde Permanente de Parques, Praças e Áreas Verdes e pela Rede Nosso Parque, entre outras entidades. As demais aconteceram em 26 de abril 2026 no Parque da Aclimação, com a presença de mais de 600 pessoas. Em seguida se manifestaram o Parque Augusta, em 17 de maio 2026, e o Parque Trianon, em 5 de julho 2026, todos reunindo também centenas de pessoas.



Modelo de concessão de parques precisa mudar


Convidado a falar durante a manifestação, Reinaldo Pacheco, professor da USP Leste e pesquisador dos modelos de parques urbanos no mundo todo, afirmou que os governantes dão as costas à experiências virtuosas de parcerias e que "a transformação progressiva de parques urbanos em polos comerciais intensifica o debate sobre o papel das áreas verdes nas cidades, em especial em São Paulo. Outras cidades ao redor do mundo (Paris, Barcelona, Bogotá, Medellín e Cidade do México, por exemplo) têm realizado esforços significativos de ampliação destas áreas com o objetivo de mitigar os efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas, além de garantir com isso o acesso da população ao lazer, à cultura, à educação e à fruição da sociabilidade urbana. Nossa cidade caminha na contramão desse processo ao transformar as áreas verdes e outros espaços públicos em espaços para mercantilização. Laboratório de soluções urbanas neoliberais, São Paulo tem desprezado o próprio conhecimento científico sobre gestão de espaços públicos urbanos e dado as costas aos exemplos internacionais. Essa conta uma hora terá que ser paga e mais uma vez o custo irá recair sobre toda a população. Fica mais uma vez o alerta: prover espaços públicos com serviços comerciais é possível, mas não neste modelo que desconsidera totalmente aspectos de desenvolvimento econômico local e de economia solidária no uso comunitário da cidade". 


O Fórum Verde Permanente também ingressou com representação no Ministério Público (IC nº 0482.0000133/2026 — 2ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente) para apurar possíveis irregularidades no projeto da Prefeitura "Polos Gastronômicos II" (Lotes A e B), que prevê a permissão de uso onerosa de 46 áreas em 31 parques municipais para exploração comercial de alimentos e bebidas. Neste inquérito, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), órgão de defesa do patrimônio público da Prefeitura, informou que, assim como os conselhos dos parques, não foi sequer consultado antes do lançamento do projeto, que previa intervenções em áreas tombadas. Não há informações no inquérito de que já tenha sido consultado.





Leia abaixo os documentos divulgados na manifestação (Manifesto e Carta de Apoio da SAAP):




MANIFESTO DOMINGO NO PARQUE


Quando é preciso acusar a monetização de áreas públicas


Os espaços públicos de São Paulo, de encontro com a natureza e com nós mesmos, estão sofrendo um ataque inédito. Os gestores públicos, junto a alguns empresários do entretenimento, estão lacerando e monetizando áreas públicas como parques, praças, espaços para esporte e cultura como se fossem terrenos desprovidos de suas histórias, sua democracia, sua função restauradora e dos afetos que os cidadãos lhes dedicam. 


Fazem isso sem os devidos estudos de impacto junto à população usuária, ao comércio local, ao meio ambiente local, após encenar uma democracia em audiências medíocres, quando há. 


Fazem isso sem preparar estruturas de fiscalização que garantam civilidade e paisagem, sem se preocupar com o constrangimento da população que deixa de frequentar os locais agora reformados para o consumo.


Fazem isso deixando de herança para as futuras gerações contratos obscenos válidos por décadas, que inibem e mutilam a ação do poder público junto ao território que deveria pertencer a todos.


Parques municipais como Ibirapuera e Trianon, concedidos e desfigurados, além de mais de trinta mapeados para receber restaurantes e "polos gastronômicos", surpreendendo seus conselhos desavisados. Parques estaduais como Villa Lobos, Água Branca, Horto Florestal, Cantareira e muitos outros, tornados centros de eventos em prejuízo de suas fauna e flora. Praças como Roosevelt, Victor Civita, Anhangabaú, perpetradas como bons negócios. Centros históricos culturais como o Memorial da América Latina, ou esportivos como o Ginásio do Ibirapuera e a Vila Olímpica Mário Covas, pretensamente entregues ao esporte e à cultura repentinamente pagos. Espaços oferecidos para comércio em áreas de preservação ambiental que podem ser alugados por um dia apenas, ou vários, ao gosto da "operação". 


Embora isso tudo tenha acontecido apenas nos últimos anos, os resultados já aparecem claros. Desrespeito cotidiano aos contratos por parte das concessionárias. Desrespeito à legislação ambiental. Inação do poder público diante da criação de ambientes de luxo e expropriação de áreas públicas com tapumes, anúncios, catracas, máquinas de passar cartão. A paisagem, recortada por esses aparatos, deixou de prover nosso restauro e mansidão.


É hora de chamar os governantes à razão e acusar a rapina do patrimônio público.


Chamamos todos os interessados em levar à rua seus corpos para manifestar seus afetos sobre esse estado de coisas.


Defendamos o território público. 






SAAP e a Concessão dos Parque Villa-Lobos e Cândido Portinari


A Associação dos Amigos de Alto dos Pinheiros (SAAP) apoia essa iniciativa pela defesa dos parques urbanos de São Paulo e contra os abusos que vêm sendo cometidos pelas empresas concessionárias.


A SAAP acompanhou de perto a criação dos parques Villa-Lobos e Cândido Portinari a partir dos anos 1980 e ocupa uma cadeira titular em seus conselhos desde que estes foram estabelecidos, em 2004. A associação tem exercido um importante papel de fiscalização, denúncia e defesa dos interesses da população, atuando em prol da manutenção dos espaços naturalizados nos respectivos parques.


Desde que entrou em vigor a concessão, em agosto de 2022, a SAAP tem solicitado limites à exploração comercial excessiva e cobrado transparência por parte da concessionária Reserva Parques e dos órgãos governamentais responsáveis pelas aprovações de novos equipamentos e fiscalização do contrato. Infelizmente, nossos reiterados esforços não surtiram o efeito esperado para coibir excessos como:

    • Construção de novos equipamentos, que passaram a ser áreas dos parques exploradas por terceiros: Orla Total Pass; Família no Parque; Espaço Heineken e Arena BR

    • Eventos pagos, de montagem complexa que ocupam grandes áreas por mais de 2 meses, para 9 dias de evento: Taste; SP gastronomia

    • Evento somente noturno e pago que interdita área para uso publico por 6 meses


Por esse motivo, a SAAP protocolou uma representação junto ao Ministério Público na área de Meio Ambiente em 14/05/2025. Em função da morosidade dessa primeira iniciativa, a associação ingressou com nova representação, desta vez perante a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social. Esta última acatou a alegação de desvio de finalidade pública dos bens concedidos e instaurou o Inquérito Civil nº 0695.0000352/2026.


A SAAP acredita que, mesmo sob o regime de concessão, os parques urbanos são obrigados a oferecer à população sobretudo lazer gratuito, oportunidade para a prática de atividades físicas, além de ambientes de sossego e contemplação. Seu papel fundamental na preservação ambiental, incluindo a fauna e a flora nativas, deve ser respeitado de forma irrestrita.



1 comentário


Fábio Sanchez
Fábio Sanchez
há 10 horas

Muito importante esse movimento. A nova geração de frequentadores dos parques, que vem para o show ou para o chope, não tem Ideia do preço que o território (fauna, flora, passeios) e a paisagem pagaram para se transformar em praça de alimentação.

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