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PREFEITURA INAUGURA PARQUE AUGUSTA. CONSELHO DESTACA VITÓRIA POPULAR



Questões como as diferentes nomeações do parque deixam claro que, antes da inauguração, cidadãos e prefeitura estavam de lados opostos.


O prefeito Ricardo Nunes inaugurou neste sábado, 06 de novembro de 2021, o Parque Augusta no terreno de 24 mil m2 na esquina das ruas Augusta e Caio Prado, na Consolação, que pertenceu ao Colégio de cônegas de Santo Agostinho Des Oiseaux. A inauguração encerra um período de muitos anos em que a população local, unida a artistas e à sociedade civil organizada, conseguiu evitar que a área se transformasse em mais um conjunto de edifícios, como estava programado dez anos atrás, tornando-se o único parque na área repleta de prédios.

Durante a inauguração, mostrou-se uma tensão entre os integrantes dos cargos de direção da Prefeitura e o movimento pela criação e o conselho do parque, porque os que discursaram fizeram questão de nomear o parque como Parque Augusta Bruno Covas, em homenagem ao ex-prefeito, falecido no primeiro semestre deste ano. O Conselho discorda da nomeação, devido a atritos acontecidos ao longo do processo de criação do parque,

No discurso que fez no ato de inauguração, a conselheira do parque Ana Banin afirmou que “nós conselheiros recebemos e endossamos diversas manifestações populares para que o Parque Augusta siga sendo chamado somente de Parque Augusta, pois como tal ele nasceu e para todos nós ele é e continuará sendo sempre Parque Augusta” No entanto, mestre de cerimônias, o prefeito Ricardo Nunes e demais integrantes da Prefeitura insistiram na nomeação com o nome do ex-prefeito. Num determinado momento, o evento assemelhou-se a uma briga de torcidas, com o mestre de cerimônias repetindo ao microfone “Bruno, Bruno, Bruno...”.

Em seu discurso, Ana Banin também destacou a luta popular pela criação do parque, lembrando que ativistas em defesa do parque chegaram a ser processados por defende-lo. Veja, no final desse texto, o texto completo do discurso do Conselho lido por Ana Banin.

Em seu discurso, o prefeito Ricardo Nunes pediu “respeito à democracia, inclusive às decisões do Executivo”, confirmando a lulta pela população, porém incomodado com o protesto por conta da nomeação. Destacou que houve a ação de muitos atores, e não só dos moradores, mas também de artistas, advogados, políticos como Gilberto Natalini etc. Ele contabilizou que o Augusta é o parque de número 111 na cidade de São Paulo, e comprometeu-se a inaugurar outros em breve: “Esse é o terceiro parque que entregamos este ano e vamos entregar ainda mais quatro, pois no Plano de Metas estão previstos oitos parques a mais para São Paulo”.

No Parque Augusta foram registradas 21 espécies de aves silvestres, entre elas três espécies que podem vir a entrar em risco devido ao intenso tráfico a que são expostas. São o beija-flor-tesoura, o carcará e o periquito-rico. Há no local pista de cooper, redário, cachorródromo e outras atrações.



Leia abaixo o discurso lido pela conselheira Ana Banin em nome do Conselho do Parque Augusta:


Bom dia, bem vindos ao Parque Augusta. Meu nome é Ana Banin e fui escolhida como representante do Conselho do Parque Augusta para estar aqui hoje com vocês. Esta mensagem não é de minha autoria. Ela foi desenvolvida de forma colaborativa pelos conselheiros do Parque Augusta.

Este conselho foi eleito em processo legítimo e conta com representantes de diferentes segmentos da população, compondo-se como um conselho heterogêneo e amplo em pessoas e ideias. Sendo assim, gostaria de falar algumas palavras sobre o Parque Augusta.

Este parque que hoje está sendo entregue à população de São Paulo foi, no passado, propriedade de uma rica família. Ele era parte de uma chácara e foi vendido à uma congregação cristã que aqui fundou um colégio. Desde essa época, o livre acesso ao bosque do terreno era assegurado à população. A própria administração pública em 1973 entendeu que a área seria de interesse popular. Mesmo assim, nas últimas décadas houve diversas tentativas de emplacar construções nesta área e subverter o seu interesse público. E também há décadas, diversos grupos de pessoas, coletivos e associações vêm reivindicando o que já era um direito de todos: a sua transformação em um parque público municipal.

O Parque Augusta tem uma história única. Não nos foi dado, nem criado pelos caminhos convencionais. Ele foi arduamente conquistado por meio de uma luta popular que durou décadas e obrigou o poder público e judiciário a estabelecerem novas possibilidades de municipalização de áreas de interesse público. Por meio de manifestações, picnics, festivais, ocupação do terreno, aulas públicas, judicialização da causa, muitas reuniões, assembleias e encontros, finalmente o parque existe. Ativistas chegaram a ser processados. Por tudo isso, ele se tornou um símbolo de luta pelo direito à cidade. Ele representa o inconformismo e o poder de transformação popular que exige seus direitos e se opõe a interesses privatistas. E, pelo sucesso obtido, hoje podemos dizer que é uma referência para que outras pessoas possam lutar por mais espaços verdes e de lazer na cidade.

Uma vez transformado em equipamento público, sua função social prevê que seja um espaço de lazer, fruição, encontro, cultura, educação, prática de esportes, e que contemple em seu cotidiano ações permanentes de arqueologia, sendo um dos primeiros parques arqueológicos urbanos do Brasil. A partir deste espaço, podemos reconhecer nosso passado, vivenciar de forma mais digna o nosso presente e construir nosso futuro.

Como espaço popular e democrático, é um lugar no qual não devem se sobrepor quaisquer referências a grupos políticos, sociais, ideológicos ou religiosos - se assim fosse, não seria popular. É por isso que nós conselheiros recebemos e endossamos diversas manifestações populares para que o Parque Augusta siga sendo chamado somente de Parque Augusta, pois como tal ele nasceu e para todos nós ele é e continuará sendo sempre Parque Augusta.

Existe uma reivindicação muito grande por parte de diversas culturas, especialmente dos povos originários, de fazerem parte deste espaço, por sua ligação com a terra, com a natureza, de uma forma que o homem urbano há muito perdeu. A importância do contato do ser humano com a natureza transcende o simples conceito de lazer, abrangendo a saúde física e mental das pessoas. Isso em um tempo em que experimentamos a sensação de ficarmos enjaulados em nossas casas, privados inclusive do contato com pessoas queridas. O ensinamento original destas culturas e etnias no sentido da integração e o cuidado com a natureza se torna chave para o resgate do ser humano enquanto ente vivente e pertencente a este planeta. Então que sejam bem vindos todos os povos e culturas ao Parque Augusta, e que nos relembrem seus ensinamentos e contemplem a cura física, mental e espiritual.

Respeitosamente solicitamos ao poder público aqui presente que continue olhando para este pedaço de terra com carinho, cuidado e responsabilidade, pois um parque não é uma ilha e sim parte de um entorno, de um bairro, de uma cidade. Por aqui passarão milhares de pessoas diariamente, vindas de todos os lugares. O que acontece ao redor de um parque também afeta o parque, e vice-versa. Neste sentido, este conselho seguirá na luta para que este parque não seja tomado por interesses individuais, econômicos e privatistas, como já se tentou fazer no passado. E enquanto for dado a este conselho o privilégio de representar os cidadãos, esta será nossa missão.

Portanto, fazer parte do Conselho Gestor deste parque, antes mesmo dele ter sido inaugurado, nos proporciona um imenso orgulho, ao mesmo tempo em que nos impõe a responsabilidade de fazer dele um lugar diferente, amplamente democrático, onde possa vigorar a troca de experiências, o multiculturalismo, a convivência com o diferente, o afeto, o aprendizado e, principalmente, a alegria.

Sobre os trabalhos do Conselho, realizamos em quase um ano e meio: 17 assembleias, dezenas de visitas técnicas à obra de implantação do parque, falamos com especialistas em várias áreas da prefeitura, ouvimos ativamente a população do entorno e demos encaminhamentos às suas demandas e anseios, mesmo com todas as limitações impostas pela pandemia. A partir de agora, as assembleias ocorrerão neste espaço e serão abertas a qualquer pessoa interessada em acompanhar o nosso trabalho. A experiência de montar um conselho gestor antes do parque abrir tem sido tão exitosa que esperamos que a prefeitura adote esta postura para os próximos equipamentos públicos em implantação, pois permite que a coletividade se aproprie da construção destes espaços e paute a função social que espera que eles exerçam.

Desejamos que todos os presentes e os futuros frequentadores tenham e manifestem o mesmo carinho e afeto que nós do conselho nutrimos pelo parque, pois, afinal, este espaço sempre foi e sempre será de todos nós: apenas Parque Augusta.


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